Antes de
começarmos, preciso dizer que não sou arauto do fracasso, nem torço pelo pior,
e sim acredito que validade e legitimidade derivam do quão bem seguimos
protocolos reconhecidos por todas as partes interessadas, e da transparência
com que nos conduzimos. Isso é respeito por nós mesmos e pelo próximo.
O ano
passado viu o noticiário tomado por matérias sobre ações contra a USP para
obtenção de fosfoetanolamina sintética, uma substância produzida de maneira
artesanal desde os anos 90 pelo Professor Gilberto Chierice e distribuída com a
alegação de curar diversos tipos de cancer.
A corrida a
USP e a impossibilidade de atender a demanda, combinada a troca de reitor,
parece ter conspirado para que a universidade tentasse colocar fim a insanidade
distribuir um produto sem comprovação de segurança e efetividade, e fora de
qualquer protocolo de estudo.
Não me
surpreendeu que algo assim acontecesse numa Universidade Pública brasileira:
ora, qualquer um que trabalhe numa federal, sabe que seus laboratórios
frequentemente funcionam como pequenos feudos, gerenciando seus próprios
fundos, seus projetos e navegando como pode a burocracia interna e dos órgãos
de fomento. Até que dá problema.
Dessa vez
deu. Deu um problemão. Um problemaço.
Ao ter a
notícia de uma pílula milagrosa, ler depoimentos de pacientes curados ou com
sensível melhoria de qualidade de vida, centenas de pessoas buscaram Socorro ao
judiciário para obtenção do tesouro. Anúncios de escritórios de advocacia
oferencendo abnegado apoio às famílias pipocaram na internet e em outros meios
de publicidade. Ministério Público e Defensoria foram inundadas de pedidos.
E Juízes…
acolheram, o que levou o assunto para os tribunais superiores.
Até agora
eu não disse qual é o problema, certo?
Como vimos
no post anterior, o processo de pesquisa e desenvolvimento de um medicamento é
longo, complexo, e detalhadamente acompanhado por agências reguladoras, que
validam cada etapa, garantindo que os produtos sejam seguros, isto é, não causem
danos à saúde, e tenham alguma eficácia.
No caso da
USP, o medicamento passou apenas pelos estudos em animais.
A
fosfoetanolamina sintética não é uma “descoberta brasileira”, nem o seu
possível uso para combater o cancer. Na verdade ela já foi considerada uma
alternative para várias doenças desde os anos setenta: huntinton, Parkinson[1],
transtorno bipolar[2],
depressão[3],
vários tipos de cancer[4].
Em nenhum dos casos ela chegou a ser estudada além da fase in vitro, que eu
saiba.
A
fosfoetanolamina não passou por essas etapas, apesar de ser “fabricada” por
todos esses anos na USP, em São Carlos. De certa maneira, a garantia que temos
da eficácia da pílula é a palavra do Professor Chierice, meia dúzia de ensaios
em animais e in vitro (realmente poucos), e depoimentos pessoais, sobre os
quais não existe nem acompanhamento.[5]
Se o
produto era assim tão maravilhoso, qual a razão de nunca alguém ter investido
no desenvolvimento dele? Melhor não entrarmos em teorias conspiratórias. As de
praxe são cansativas demais.
Depois de
toda uma saga judicial, idas e vindas, decidiu-se que a Anvisa acompanharia os
ensaios clínicos (em três fases) que compõem o processo de registro da
fosfoetanolamina.
Antes dos
estudos, procedeu-se a análise das cápsulas produzidas pelo laboratório da USP
e concluiu-se que as capsulas não continham apenas o princípio ativo alegado,
mas outras substâncias, além de quantidades variáveis do princípio ativo,
frequentemente inferior a declarada na rotulagem afixada no produto.
Sinceramente,
para mim pouco importa o que o Prof. Chierice diga ou deixe de dizer sobre
isso, pois a análise executada resulta numa fotografia de um evento, o qual
pode ou não ser indicador de um padrão. Nesse caso, foi observada uma enorme
variabilidade de conteúdo das cápsulas, indicando inconsistência no processo
produtivo. É impossível afirmar que o mesmo percentual de variabilidade ocorria
quando o digníssimo professor liderava o laboratório, mas é fato que não lidera
mais, e que hoje está acontecendo isso, e não se pode, portanto, garantir a
partir dessas amostras, que os pacientes estão consumindo o que acreditam estar
consumindo.
O efeito
prático disso? No mínimo, placebo. O efeito existe por que o paciente acredita
que ele deve existir, havendo uma avaliação enviesada do estado de saúde, por
exemplo; ou então ele melhora por que melhoraria de qualquer maneira,
consumindo ou não o medicamento. Logo, é
prudente colocar em dúvida alguns dos depoimentos apresentados, e fazer um
acompanhamento cuidadoso de quem já consumiu o medicamento. O problema disso? O
laboratório não tem como rastrear os usuários de maneira sistemática.
Feita a
padronização do produto, passou-se a Fase I, que, como visto no post anterior,
consiste na verificação de segurança do produto, onde ele é ministrado a um
grupo pequeno de pacientes saudáveis, e são observados efeitos colaterais e
adversos.
A Fase I
foi encerrada concluindo-se que o produto é seguro dentro das condições do
estudo. E qual é a razão da ênfase que dou ao “nas condições do estudo”?
Qualquer produto, mesmo que passe nas três fases de ensaios clínicos, pode, uma
vez comercializados em larga escala, apresentar efeitos adversos que impliquem
desde alteração na sua rotulagem, até o cancelamento de seu registro, a
depender da avaliação de risco e da gravidade do evento por parte da autoridade
sanitaria competente.
Exemplo? O
Vioxx foi aprovado pelo FDA atendendo a todos os requisites, entretanto
apresentou efeitos adversos significativos o suficiente para justificar o seu
“cancelamento”.
Entendamos
que não é o óbito de um paciente que justifica o cancelamento do registro de um
produto, nem o de dois pacientes, mas toda uma avaliação de risco-benefício.
Digamos, os pacientes que foram a óbito tinham alguma condição subjacente que
foi agravada por determinada característica do medicamento? Existe algum grupo
que pode se beneficiar do produto? O benefício é significativo comparado aos
protocolos existentes? Há possibilidade do risco ser minimizado mediante
rotulagem, orientações para uso, restrição de dispensação?
O que quero
dizer, é que, passer na Fase I não é exatamente uma grande vitória para os
proponentes do registro da “pílula do cancer”. É apenas uma etapa, com sua
função e suas limitações, deve ser entendida como tal, sem ansiedades e maiores
expectativas. A não ser
que haja a intenção de captar recursos privados, então é compreensível o
alarde, uma vez que a indústria farmacêutica, vituperada pela comunidade
científica brasileira, é useira e vezeira dessa estratégia de divulgação de
resultados da etapas de desenvolvimento de forma festiva, ampliando o valor das
suas ações no Mercado, movimentando seu capital, etc. De fato, cada etapa
alavanca a seguinte, vendendo esperanças.
A Fase II
começará em breve, e avaliará segurança, e eficácia em pacientes de neoplasias
determinadas. Dependendo da consistência dos desfechos, e dos efeitos adversos
observados, o produto seguirá a Fase III, one será ministrado a mais pacientes.
A Pílula do
Câncer foi vendida como uma espécie de panacéia, de medicamento universal para
uma doença que não é um ente único, não é uma doença, mas várias! É improvável
que ela seja eficaz para todas as neoplasias testadas, e ela não será testada
para todas as possibilidades. Justamente pela impossibilidade de esgotar todas
as possibilidades, acredito que essa substância viverá na web, digamos, como um
zumbi, ressurgindo como panacéia, como aquilo que a “indústria não quer que
você saiba”, “o medicamento que o estrangeiro não quer que o Brasil venda”, e
coisas do gênero.
Voltando a
questão da legitimidade colocada no primeiro parágrafo, se tudo tivesse sido
feito de acordo com todo o rito exigido, não haveria dúvida ou suspeita alguma.
Simples assim.
Links:
Links:
[1] 1,2-Dilinoleoyl-sn-glycero-3-phosphoethanolamine ameliorates age-related spatial memory deterioration by preventing neuronal cell death . Takahiro Yaguchi, Tetsu Nagata and . moyuki Nishiza. Behavioral and Brain Functions20106:52 DOI: 10.1186/1744-9081-6-52 Published: 13 September 2010 at < https://behavioralandbrainfunctions.biomedcentral.com/articles/10.1186/1744-9081-6-52> acesso em 19/1/2016
[2] Ethanolamine and phosphoethanolamine inhibit mitochondrial function in vitro: implications for mitochondrial dysfunction hypothesis in depression and bipolar disorder Modica-Napolitano, Josephine S et al. Biological Psychiatry , Volume 55 , Issue 3 , 23 - 277
[3] Mitochondrial Dysfunction as the Molecular Basis of Bipolar DisorderTherapeutic Implications CNS Drugs (2007) 21: 1. doi:10.2165/00023210-200721010-00001
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Fuchs
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