quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A saga da fosfoetanolamina, ou "pilula do câncer'





Antes de começarmos, preciso dizer que não sou arauto do fracasso, nem torço pelo pior, e sim acredito que validade e legitimidade derivam do quão bem seguimos protocolos reconhecidos por todas as partes interessadas, e da transparência com que nos conduzimos. Isso é respeito por nós mesmos e pelo próximo.

O ano passado viu o noticiário tomado por matérias sobre ações contra a USP para obtenção de fosfoetanolamina sintética, uma substância produzida de maneira artesanal desde os anos 90 pelo Professor Gilberto Chierice e distribuída com a alegação de curar diversos tipos de cancer.

A corrida a USP e a impossibilidade de atender a demanda, combinada a troca de reitor, parece ter conspirado para que a universidade tentasse colocar fim a insanidade distribuir um produto sem comprovação de segurança e efetividade, e fora de qualquer protocolo de estudo.

Não me surpreendeu que algo assim acontecesse numa Universidade Pública brasileira: ora, qualquer um que trabalhe numa federal, sabe que seus laboratórios frequentemente funcionam como pequenos feudos, gerenciando seus próprios fundos, seus projetos e navegando como pode a burocracia interna e dos órgãos de fomento. Até que dá problema.

Dessa vez deu. Deu um problemão. Um problemaço.

Ao ter a notícia de uma pílula milagrosa, ler depoimentos de pacientes curados ou com sensível melhoria de qualidade de vida, centenas de pessoas buscaram Socorro ao judiciário para obtenção do tesouro. Anúncios de escritórios de advocacia oferencendo abnegado apoio às famílias pipocaram na internet e em outros meios de publicidade. Ministério Público e Defensoria foram inundadas de pedidos.  

E Juízes… acolheram, o que levou o assunto para os tribunais superiores.
Até agora eu não disse qual é o problema, certo?
Como vimos no post anterior, o processo de pesquisa e desenvolvimento de um medicamento é longo, complexo, e detalhadamente acompanhado por agências reguladoras, que validam cada etapa, garantindo que os produtos sejam seguros, isto é, não causem danos à saúde, e tenham alguma eficácia.

No caso da USP, o medicamento passou apenas pelos estudos em animais.
A fosfoetanolamina sintética não é uma “descoberta brasileira”, nem o seu possível uso para combater o cancer. Na verdade ela já foi considerada uma alternative para várias doenças desde os anos setenta: huntinton, Parkinson[1], transtorno bipolar[2], depressão[3], vários tipos de cancer[4]. Em nenhum dos casos ela chegou a ser estudada além da fase in vitro, que eu saiba.
A fosfoetanolamina não passou por essas etapas, apesar de ser “fabricada” por todos esses anos na USP, em São Carlos. De certa maneira, a garantia que temos da eficácia da pílula é a palavra do Professor Chierice, meia dúzia de ensaios em animais e in vitro (realmente poucos), e depoimentos pessoais, sobre os quais não existe nem acompanhamento.[5]

Se o produto era assim tão maravilhoso, qual a razão de nunca alguém ter investido no desenvolvimento dele? Melhor não entrarmos em teorias conspiratórias. As de praxe são cansativas demais.

Depois de toda uma saga judicial, idas e vindas, decidiu-se que a Anvisa acompanharia os ensaios clínicos (em três fases) que compõem o processo de registro da fosfoetanolamina.


Antes dos estudos, procedeu-se a análise das cápsulas produzidas pelo laboratório da USP e concluiu-se que as capsulas não continham apenas o princípio ativo alegado, mas outras substâncias, além de quantidades variáveis do princípio ativo, frequentemente inferior a declarada na rotulagem afixada no produto. 

Sinceramente, para mim pouco importa o que o Prof. Chierice diga ou deixe de dizer sobre isso, pois a análise executada resulta numa fotografia de um evento, o qual pode ou não ser indicador de um padrão. Nesse caso, foi observada uma enorme variabilidade de conteúdo das cápsulas, indicando inconsistência no processo produtivo. É impossível afirmar que o mesmo percentual de variabilidade ocorria quando o digníssimo professor liderava o laboratório, mas é fato que não lidera mais, e que hoje está acontecendo isso, e não se pode, portanto, garantir a partir dessas amostras, que os pacientes estão consumindo o que acreditam estar consumindo.

O efeito prático disso? No mínimo, placebo. O efeito existe por que o paciente acredita que ele deve existir, havendo uma avaliação enviesada do estado de saúde, por exemplo; ou então ele melhora por que melhoraria de qualquer maneira, consumindo ou não o medicamento.  Logo, é prudente colocar em dúvida alguns dos depoimentos apresentados, e fazer um acompanhamento cuidadoso de quem já consumiu o medicamento. O problema disso? O laboratório não tem como rastrear os usuários de maneira sistemática.

Feita a padronização do produto, passou-se a Fase I, que, como visto no post anterior, consiste na verificação de segurança do produto, onde ele é ministrado a um grupo pequeno de pacientes saudáveis, e são observados efeitos colaterais e adversos. 



A Fase I foi encerrada concluindo-se que o produto é seguro dentro das condições do estudo. E qual é a razão da ênfase que dou ao “nas condições do estudo”? Qualquer produto, mesmo que passe nas três fases de ensaios clínicos, pode, uma vez comercializados em larga escala, apresentar efeitos adversos que impliquem desde alteração na sua rotulagem, até o cancelamento de seu registro, a depender da avaliação de risco e da gravidade do evento por parte da autoridade sanitaria competente.

Exemplo? O Vioxx foi aprovado pelo FDA atendendo a todos os requisites, entretanto apresentou efeitos adversos significativos o suficiente para justificar o seu “cancelamento”. 

Entendamos que não é o óbito de um paciente que justifica o cancelamento do registro de um produto, nem o de dois pacientes, mas toda uma avaliação de risco-benefício. Digamos, os pacientes que foram a óbito tinham alguma condição subjacente que foi agravada por determinada característica do medicamento? Existe algum grupo que pode se beneficiar do produto? O benefício é significativo comparado aos protocolos existentes? Há possibilidade do risco ser minimizado mediante rotulagem, orientações para uso, restrição de dispensação?

O que quero dizer, é que, passer na Fase I não é exatamente uma grande vitória para os proponentes do registro da “pílula do cancer”. É apenas uma etapa, com sua função e suas limitações, deve ser entendida como tal, sem ansiedades e maiores expectativas. A não ser que haja a intenção de captar recursos privados, então é compreensível o alarde, uma vez que a indústria farmacêutica, vituperada pela comunidade científica brasileira, é useira e vezeira dessa estratégia de divulgação de resultados da etapas de desenvolvimento de forma festiva, ampliando o valor das suas ações no Mercado, movimentando seu capital, etc. De fato, cada etapa alavanca a seguinte, vendendo esperanças.

A Fase II começará em breve, e avaliará segurança, e eficácia em pacientes de neoplasias determinadas. Dependendo da consistência dos desfechos, e dos efeitos adversos observados, o produto seguirá a Fase III, one será ministrado a mais pacientes.

A Pílula do Câncer foi vendida como uma espécie de panacéia, de medicamento universal para uma doença que não é um ente único, não é uma doença, mas várias! É improvável que ela seja eficaz para todas as neoplasias testadas, e ela não será testada para todas as possibilidades. Justamente pela impossibilidade de esgotar todas as possibilidades, acredito que essa substância viverá na web, digamos, como um zumbi, ressurgindo como panacéia, como aquilo que a “indústria não quer que você saiba”, “o medicamento que o estrangeiro não quer que o Brasil venda”, e coisas do gênero.



[1] 1,2-Dilinoleoyl-sn-glycero-3-phosphoethanolamine ameliorates age-related spatial memory deterioration by preventing neuronal cell death . Takahiro Yaguchi, Tetsu Nagata and . moyuki Nishiza. Behavioral and Brain Functions20106:52 DOI: 10.1186/1744-9081-6-52 Published: 13 September 2010 at < https://behavioralandbrainfunctions.biomedcentral.com/articles/10.1186/1744-9081-6-52> acesso em 19/1/2016

[2] Ethanolamine and phosphoethanolamine inhibit mitochondrial function in vitro: implications for mitochondrial dysfunction hypothesis in depression and bipolar disorder Modica-Napolitano, Josephine S et al. Biological Psychiatry , Volume 55 , Issue 3 , 23 - 277

[3] Tadafumi Kato . Mitochondrial Dysfunction as the Molecular Basis of Bipolar DisorderTherapeutic Implications CNS Drugs (2007) 21: 1. doi:10.2165/00023210-200721010-00001

[4]  Ferreira AK, Meneguelo R, Pereira A, Filho, OMR, Chierice GO, Maria, DA. Synthetic phosphoethanolamine induces cell cycle arrestapoptosis in human breast cancer MCF-7 cells through the mitochondrial pathway. Biomed Pharmacother. 2013 jul. 67(6):481-7.
 Ferreira AK, Freitas VM, Levy D, Ruiz JL, Bydlowski SP, Rici RE, Filho OM, Chierice GO, Maria DA. Anti-angiogenicanti-metastatic activity of synthetic phosphoethanolamine. PLoS One. 2013 mar; 8(3):e57937.
 Ferreira AK, Meneguelo R, Pereira A, Filho, OMR, Chierice GO, Maria, DA. Anticancer Effects of Synthetic Phosphoethanolamine on Ehrlich Ascites Tumor: An Experimental Study. Anticancer Res. 2012; 32(1): 95-104.
 Ferreira AK, Meneguelo R, Marques FL, Radin A, Filho OM, Neto SC, Chierice GO, Maria DA. Synthetic Phosphoethanolamine a precursor of membrane phospholipids reduce tumor growth in mice bearing melanoma B16-F10in vitro induce apoptosisarrest in G2/M phase. Biomed Pharmacother. 2012; 66(7):541-8.
Fuchs FD, Wannmacher L. Farmacologia Clínica. Fundamentos da Terapêutica Racional. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan; 2010. Capítulo 1.
Calixto JB, Siqueira Jr JM. Desenvolvimento de Medicamentos no Brasil: Desafios. Gaz. Méd. Bahia. 2008; 78(Suplemento 1):98-106.

[5] Ferreira AK, Santana-Lemos BAA , Rego EM, Filho OMR , Chierice GO, Maria DA. Synthetic phosphoethanolamine has in vitroin vivo anti-leukemia effects. Br J Cancer. 2013 nov 7. 109(11):2819-28.

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